terça-feira, 6 de outubro de 2009

O PCC da vida real

O PCC (Primeiro Comando da Capital) está nas telas do cinema com o 'Salve Geral'. Não vou fazer nenhuma crítica sobre o filme, seria muita pretensão minha. E pra que ninguém entenda este post desta forma, optei por contar essa história antes de assistir.
As críticas que li falam de um filme que retrata os ataques do crime organizado em SP, no ano de 2006, como uma luta contra a crueldade do sistema penitenciário. Ele é cruel? É, sim. É desumano? É sim. O PCC cumpre um papel de assistência às famílias dos presos? Cumpre (por culpa do Estado que é omisso). A corrupção e a tortura fazem parte do dia-a-dia do sistema penitenciário? Fazem, sim.
Ok. Até aí, está correto. Mas e o outro lado do PCC? É o que me foi mostrado recentemente, na última vez que entrei numa prisão, este ano. Num sábado de plantão, fui até um Centro de Detenção Provisória (CDP), na Grande São Paulo, conversar com um diretor de disciplina. É uma boa fonte. Fui pegar cadernos com a contabilidade da facção, que tinham sido apreendidos numa revista. O funcionário decidiu me entregar o material porque não confiava em seus superiores...
Fomos com um carro sem logotipo, pra não chamar a atenção. (Nada chama mais atenção do que um carro escrito: REPORTAGEM). Entrei no presídio e fui convidado pelo diretor a conhecer o chamado "seguro". É onde ficam os presos que correm o risco de morrer se forem mantidos com os demais detentos. Estava lotado. "Você vai ver agora a prova do que o PCC faz dentro de uma unidade", disse o diretor.
Ele me contou que o "seguro" era, até pouco tempo atrás, o setor que dava mais trabalho e que ficava cheio raramente. "Aqui, FICAVAM os nossos problemas, os caras perigosos... Hoje é assim... a parte mais tranquila". Vi 12 pequenas celas abertas, os presos conversando e funcionários andando entre eles sem nenhum problema ou risco. Nem pareciam lados opostos.
Um dos presos, um traficante, me disse: "Eu não quero ficar lá dentro (com os outros 1.400 presos). Esse PCC não dá sossego. Exige dinheiro a toda hora. E quem não paga, vê a família morrer na rua pra depois morrer aqui mesmo." E ele ainda falou, sem nenhuma cerimônia: "Só quero vender o meu 'pózinho' em paz"
Um outro detento com quem conversei estava preso preventivamente por roubo - pela sétima vez!! Ele deu detalhes da crueldade, das extorsões e de como a facção estimula o uso de drogas na cadeia para ter a maior parte dos detentos nas mãos, graças ao vício e às dívidas.  "Tá louco?? Que PCC, o que!! Eu sei roubar pra mim... Por que tenho que roubar pra pagar esses caras? Eles são um câncer, até pra bandido..."

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