terça-feira, 24 de novembro de 2009

Quando o repórter reza pra não dar certo

No último dia 18, um consultor de 30 anos jogou o filho de dois anos do alto de um prédio e, em seguida, pulou. Aconteceu em São Paulo. Foram dois dias de cobertura. E daquele jeito... A ordem na maior parte das redações foi quase única:
- "Temos que descobrir tudo sobre a vida desse casal!"
Escapei do primeiro dia, mas não do segundo. Fiquei com os enterros e o desfecho do caso. De manhã, uma equipe fez imagens do velório do pequeno Pedro, em São Paulo. Lá, ninguém falou com a imprensa.
À tarde, fui para o enterro do pai, Cassio, em São Caetano do Sul, Grande São Paulo. Pedi para que cinegrafista, assistente e motorista ficassem do lado de fora. Entrei sozinho e rezando. Primeiro, para que o enterro já tivesse acabado. Mas ele estava no começo. O corpo saía da capela naquele instante. Muitas pessoas em volta, uma tristeza avassaladora. Impossível imaginar a dor dos pais de Cássio. Continuei rezando pra que alguém me proibisse de chegar mais perto. Vi dois guardas civis da cidade no meu caminho e pensei:
- "Graças a Deus! De lá eu não passo". Também não deu certo. Não só passei como um dos guardas me fez um sinal e disse baixinho sem que eu perguntasse nada:
- "É esse mesmo...".
Já meio sem esperanças, continuei rezando. Por uma chuva forte, um raio, uma queda de árvore na minha frente, qualquer coisa... Foi quando um senhor que seguia o cortejo a pé olhou pra trás e me viu. Ele deu meia volta, chegou perto, me deu a mão e disse:
- "Boa tarde. Você pode me fazer uma favor?" Respondi:
- "Claro!" E pensei: "O senhor é quem vai me fazer um favor."
- "Você pode respeitar nossa dor?"
Respondi quase que num suspiro:
- "Claro que sim. Até logo e boa sorte."
Saí do cemitério com aquele frio na barriga, um tremor na perna e um baita alívio. O passo seguinte foi ligar pra redação e dizer que ninguém da família de Cassio iria falar. Ainda bem. A missão do jornalismo é tornar público fatos relevantes. A declaração de um familiar de Cassio é considerada por alguns uma informação importante. Pra mim, é apenas exploração da dor em busca de audiência. Fico muito feliz que não tenha "dado certo".

4 comentários:

  1. É por isso q é bom aparecer por aqui. Para saber q tem gente q se importa.

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  2. E aí moço ... inacreditável como consigo ver vc contando essa história... rs
    Olha mesmo já tendo ficado do outro lado, pentelhando, insistindo, que os repórteres fossem até lá e trouxessem qq. declaração da família, confesso que concordo plenamente que esse tipo de cobertura jornalística é realmente uma exploração da dor alheia, puro sensacionalismo !!!
    Bj
    Li

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  3. Cada vez que passo para ver seu blog me surpreendo, você é de uma tamanha franqueza e sensibilidade que poucos são capazes de demonstrar. Fico feliz por você e parabens.

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  4. Parabéns, percebe-se que vc é um grande profissional e terá um futuro brilhante na TV

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