sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Preso sem nome, mas com time

Na terça-feira (9), fomos até Guaratinguetá, no interior de São Paulo. A matéria era sobre um rapaz que estava preso desde agosto do ano passado, pelo furto de uma bolsa. A polícia pedira ajuda porque o homem aparentava problemas mentais, falava poucas palavras, não tinha documentos e pelas digitais era impossível descobrir a identidade dele. Um preso sem nome acusado de um crime com poucas provas, já que ele tinha sido encontrado na esquina da delegacia e sem a tal bolsa. A vítima teria reconhecido o rapaz como um dos dois ladrões. Mesmo culpado, ele já poderia ter sido solto. Mas sem um nome seria impossível.
Este tipo de matéria, que para muitos pode parecer sem importância, é sempre especial, na minha opinião. É uma grande chance para que o nosso trabalho resulte, de fato, em algo positivo, além do blá blá de boa audiência, furos e etc. Colocar o rosto do rapaz na TV em rede nacional poderia levar a um reencontro com a família.
Autorizados pela Justiça, fomos até a cela exclusiva do preso sem nome. Exclusiva, porque os outros detentos não aguentavam a falta de higiene do rapaz, que espalhava comida pelo chão e fazia xixi e cocô em todos os cantos. O policial nos alertara que o preso só falava (e com muita dificuldade) o nome, supostamente, Antônio.
Andamos pelos corredores escuros da cadeia pública e encontramos o preso encostado na grade. Ele me olhou e foi sentar no chão, nos fundos da pequena cela. Imagem triste aquela. Chamei-o pelo nome:
- "Antônio, vem aqui conversar com a gente". E nada.
O policial tinha dito que o rapaz gostava de cigarro. A salvação veio graças ao assistente da nossa equipe, o sempre atento Agamenon, que tinha um maço de Derby no bolso do colete. Mostrei o cigarro e Antônio se aproximou.
Ele disse que o nome da mãe era "EEZA" (Tereza, talvez), que morava "LÁ, LÁ EM BAIO" (lá, lá embaixo) e que tinha "INE ANOS" (quinze?) de idade.
Foi quando perguntei:
- "Que time você torce?".
A resposta foi de bate-pronto e com um sorriso:
- "UÍNTIA" (Corinthians!).
Caímos na gargalhada. Não perdi a chance de amolar o repórter-cinematográfico Ailton Silva, um corinthiano roxo. Ele, que vive me chamando de "Bambi", teve (e vai ter) que aguentar muita gozação.
Em tempo: a matéria foi ao ar e a família do preso sem nome apareceu por causa reportagem. Ele é de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, e agora terá uma chance de voltar pra casa.

4 comentários:

  1. olha só, seu Fábio. É o típico caso que você me disse uma vez, de que é nessas horas que a gente faz valer o nosso trabalho. Lembrei da história dos presos esperando transferência. Quanto ao Corinthians, tome tenência, rapaz. Isso mostra que o alvi-negro é universal, paixão até para os que perderam, aparentemente, a razão.

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  2. Adorei.....assisti a reportagem e fiquei torcendo para que ele fosse reconhecido por alguem. Muito legal....fiquei muito feliz mesmo...valeu a reportagem....

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  3. Bom Trabalho só o jornalismo televisivo pode mostrar a face que o Brasil tenta esconder. E já sei para tirar açlguma informação de um corinthianoé só oferecer um Derby

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  4. Diamante, esse é o jornalismo q faz arrepiar msmo...O q vale a pena fazer, assitir ou ler. Não assisti, mas me emocionei lendo. Esse video não dá para postar?
    Bjs
    Norma

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