sábado, 13 de março de 2010

O medo de dizer a verdade

Já gravamos muitas vezes com pessoas que não podem mostrar o rosto. É o que a gente chama de "sonora no contra-luz". É um instrumento legítimo para preservar o entrevistado.
Na sexta-feira (12), fomos até Diadema, na Grande São Paulo, para mostrar (mais) um caso de execução policial. Diogo de Castro, de 23 anos, um ex-presidiário que estava em liberdade condicional, foi morto por policiais da Rota. Os Pms dizem que o rapaz estava armado e atirou primeiro. Mas moradores viram quando Diogo foi abordado, colocado vivo na viatura e levado pelos policiais, sem nenhuma resistência.
Fomos entrevistar uma dessas testemunhas. Nesses anos todos de reportagem, nunca tinha visto uma pessoa tremer de medo durante uma entrevista. Foi o que aconteceu. O rapaz aceitou falar por uma questão de Justiça, mas estava apavorado:
- "Me dá desespero de pensar. Eles matam mesmo e eu não sou ninguém, nada..."
Mostramos a ele que era impossível alguém reconhecê-lo e prometemos que a voz também seria distorcida. Mas calmo, num rápido bate-papo, ele contou o que vem acontecendo na periferia, em Diadema:
- "Eles chegam batendo já. Os caras passam aqui e olham como se a gente fosse bicho"
E dinheiro? Eles levam?
- "Toda hora. O pessoal da Força (Força Tática) eu nunca vi. Mas os Corsinhas... (pms com Corsas) Outro dia eu tinha R$ 140 no bolso do salário do mês. Foi tudo embora no Corsinha..."

Um comentário:

  1. Pois é, parece que o tempo não passou, dá para sentir a mesma sensação do tempo do Rota 66: A história da polícia que mata.

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