quinta-feira, 13 de maio de 2010

Porque muitos não acreditam em nós

O bebê levado por uma adolescente de uma maternidade em São Paulo rendeu muito o que falar. Fiz uma das matérias. Uma jovem de 15 anos (!), em depressão por ter sofrido um aborto, entrou na maternidade Leonor Mendes de Barros, no Brás, com um avental branco. Contou uma história e levou o bebê de Luana Aparecida Pereira, de 26. A garota chegou com a criança em casa e o pai levou a filha para a delegacia. A bebê foi devolvida em poucas horas. Nossa matéria deveria, além de contar a história do sequestro, mostrar que a segurança na tal maternidade era uma grande piada.
Fui entrevistar uma enfermeira que trabalhava por lá. Ela falaria sobre os graves problemas, mas teria a identidade preservada. Durante a entrevista, perguntei se ela acreditava que algum dia algo poderia mudar na maternidade. E ela respondeu:
- "Acho que não. É muito descaso... A mídia tem poder e até pode levar a uma mudança, mas a imprensa também não parece muito preocupada com as mães pobres que ganham seus bebês lá, né?"
Ouvi a crítica calado. Sabia que a enfermeira não tinha dito nenhum absurdo.
Depois da entrevista, numa conversa, perguntei a ela:
- "Por que a senhora acha que a imprensa não investiga a fundo casos como esse?"
A resposta dela veio com uma história que aconteceu durante outro escândalo na mesma maternidade, só que em 2009. Foi quando uma recém-nascida prematura foi dada como morta durante o parto. Depois de passar quatro horas sozinha na sala de cirurgia, ela foi vista se mexendo por uma faxineira em meio ao lixo hospitalar. Palavras da enfermeira:
- "Naquele dia, a direção contou um monte de mentira. Escondeu tudo. Tinha uma repórter alta, loira e bonita de uma TV na porta da Leonor Mendes. Eu arrisquei minha cabeça e chamei ela bem baixinho: 'Vem aqui, fia, vem. Vou te mostrar a verdade, onde tudo aconteceu'. Mas a bonitona me respondeu assim: 'Não precisa, não, senhora. O diretor já gravou comigo e a matéria tá pronta'. Ela virou as costas e me deixou falando sozinha..."

Um comentário:

  1. Olá meu caro;

    É, infelizmente a "lei do mínimo esforço" também afeta alguns profissionais da imprensa. Às vezes buscar os fatos "reais" dá trabalho, e por isso muita gente se dá por satisfeita com as tais "fontes oficiais". E aí, como reflexo, muitos condenam toda uma instituição - no caso, a imprensa - devido à má atuação de alguns. Mas creio que a leva de jornalistas egocêntricos do tipo "eu sou mais importante do que a notícia" também colabore com isso. Alguns profissionais transformam a imprensa num grande "big brother", onde se colocam à frente da importância das matérias. Assim, má vontade + egocentrismo dão nisso: uma imprensa desacreditada. Aliás, se cabe aqui o comentário, vimos muitos desses egos gigantes na coletiva com o Dunga. Como faria o "velho guerreiro", troféu abacaxi pra essa gente!

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