quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O choro de uma mãe

Esperar uma mãe que foi reconhecer o corpo do filho na porta do Instituto Médico Legal (IML) é uma missão que me incomoda. Ana Maria Souza Santos tinha recebido a notícia de que o filho dela, Jonathan, de 15 anos, desaparecido desde sexta-feira, estava morto. A suspeita é que ele tenha sido executado por policiais que acharam que o garoto era um ladrão.
Quando saía do IML, Ana Maria olhou para nós repórteres e começou a chorar. A dor estava estampada no rosto daquela senhora. Sem querer dar entrevista, ela chorava muito e fazia não com a cabeça. Eu parei e sugeri: "Deixa, deixa. Vamos deixar ela em paz". Mas apenas um repórter cinematográfico de outra emissora concordou. Os demais colegas continuaram em frente, cercando Ana Maria naquele empurra-empurra ridículo e soltando perguntas do tipo: "O que a senhora quer agora?" ou "Como a senhora se sente?"
O repórter-cinematográfico que parou ao meu lado disse, cheio de vergonha (alheia): "Eu não suporto mais isso. É explorar demais a tragédia na vida dos outros". Só que a repórter, que trabalhava com ele, não gostou: "A matéria só vale por causa do sofrimento dela. Vai lá." Meu estômago subiu até a garganta. Mas o repórter-cinematográfico respondeu à altura. "Pra mim deu. Não posso fazer mais nada." Ainda bem, mesmo que o brilhante colega faça parte de uma minoria.

2 comentários:

  1. caro Diamante, a vontade que dá é fazer a tal repórter engolir a canopla do microfone...

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  2. Muito bom, Fabio! Vc mostrou ser, acima de tudo, inteligente. Assim vc faz a diferenca e vai longe. Parabens pelo seu trabalho. A proposito, lembro de vc na epoca do Rio Branco. Bom saber que vc esta bem. Boa sorte!

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