quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Repórteres detetives e um delegado fanfarrão

É preciso contar a verdade sobre a cobertura da morte da supervisora de vendas Vanessa Vasconcelos Duarte, de 25 anos. Ela desapareceu no dia 12 de fevereiro depois de deixar a casa do noivo em Barueri, na Grande São Paulo, e foi encontrada morta no dia seguinte, numa área de mata em Vargem Grande Paulista. Foi assassinada por um ex-presidiário, viciado em crack, que planejou violentar a moça.
A imprensa teve enorme interesse no caso, desde o início. E é, de fato, um crime grave de violência absurda. Mas a verdade é que o que atraiu a mídia foi a fantasia de uma "grande história". Jornalistas fizeram do noivo e do cunhado de Vanessa os grandes suspeitos, logo no primeiro dia.
Entrei na cobertura alguns dias depois. A maioria estava desde o início. Logo que cheguei, ouvi repórteres (muitos) dizendo que o noivo era o assassino porque "ele não chorava, era muito frio...". O cunhado, então, virou suspeito porque "chorava demais no enterro, era muito falso."
Se essa idéia não saísse das rodas de jornalistas que se formaram na porta da delegacia, ainda vai. Mas a tese dos detetives da imprensa foi levada para as redações, o que aumentou e muito o interesse no caso. Apresentadores de telejornais pergutavam todos os dias para os repórteres, que falavam ao vivo da delegacia:
- "Me diga uma coisa. Não quero acusar ninguém... mas a polícia investiga a situação do noivo e do cunhado da vítima?"
E os repórteres respondiam com cara de "eu sei mas não posso contar":
- "Olha, nenhuma hipótese está sendo descartada".
O mais grave é que a tese virou verdade. As pessoas falam disso nas ruas. Perguntam sobre o tal envolvimento do noivo e do cunhado. Apesar da vergonha profunda que sinto do nosso comportamento, é preciso dizer que a culpa não é só dos jornalistas. Acrescente a isso tudo um delegado que fala demais, passa informações erradas diariamente e gosta de privilegiar algumas emissoras de TV, sabe-se lá por quê. Um 'fanfarrão', como é chamado hoje pelos (poucos) jornalistas mais experientes.
O crime está esclarecido e ninguém sequer pediu desculpas à família de Vanessa.

Um comentário:

  1. Primeiro acusa, depois pergunta. Isso é uma das coisas mais perversas dos nossos colegas de profissão.

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